06/01/2026

Rondoniaemqap

De olho nas principais notícias

Apesar de “química”, governo teme dedo de Trump nas eleições do Brasil

Planalto avalia que histórico de atuação do presidente dos EUA na América Latina elevam risco de ingerência externa na corrida eleitoral.

Apesar da relação descrita como “boa química” entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, o Planalto vê com preocupação a possibilidade de uma interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais de 2026. A avaliação ganhou força nas últimas semanas, diante do agravamento das tensões na América Latina e do histórico recente de atuação do republicano em disputas eleitorais na região.

O alerta se intensificou após o ataque liderado por Trump na Venezuela no último sábado (3/1) — que resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da esposa Cilia Flores — e das ameaças de operações militares na Colômbia, no México e em Cuba.

Segundo a avaliação do governo, a eleição de 2022 já havia sido marcada por forte contaminação do debate internacional, mas a diferença é que, agora, a agenda externa tende a ganhar um peso mais “institucionalizado” na campanha de 2026, algo considerado inédito no processo político brasileiro.

Aposta da oposição

  • Como mostrou o Metrópoles, caciques da direita brasileira avaliam que a intervenção dos EUA na Venezuela tira de Lula um dos seus “trunfos” para a eleição de 2026: a aproximação com Trump.
  • A avaliação é compartilhada pelo entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à Presidência.
  • Segundo aliados do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Lula não poderá vender na campanha uma “boa relação” com Trump enquanto o condena pela intervenção militar na Venezuela.
  • O entorno da pré-campanha de Flávio entende que a Venezuela assumirá papel central no próximo pleito presidencial.

Apesar de “química”, governo teme dedo de Trump nas eleições do Brasil - destaque galeria
6 imagens

Apesar de “química”, governo teme dedo de Trump nas eleições do Brasil - imagem 2

Apesar de “química”, governo teme dedo de Trump nas eleições do Brasil - imagem 3
Os presidentes dos EUA e do Brasil, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva
Apesar de “química”, governo teme dedo de Trump nas eleições do Brasil - imagem 5
Encontro entre Lula e Trump na Malásia

Interferências na região

A diplomacia brasileira vê paralelos claros entre o que ocorreu recentemente em países como Honduras e Argentina e o que pode acontecer no Brasil.

Nas eleições legislativas argentinas e nas presidenciais hondurenhas em 2025, Trump declarou abertamente apoio a candidaturas de direita e sinalizou que Washington poderia suspender a ajuda financeira aos países caso esses grupos fossem derrotados nas urnas. No caso argentino, o republicano condicionou a liberação de um pacote de socorro de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 109 bilhões) à vitória de aliados do presidente Javier Milei no Congresso.

A leitura interna é de que uma estratégia semelhante pode ser tentada no Brasil, ainda que com maior grau de dificuldade.

Isso porque, diferentemente de outros países da região, o sistema político brasileiro conseguiu, analisam interlocutores, neutralizar uma tentativa mais explícita de interferência. Em julho de 2025, Trump deixou claro, na carta pública que anunciava o tarifaço de 50% para produtos brasileiros, que via o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como seu aliado no Brasil.

A pressão vinda dos EUA, no entanto, não prosperou, e Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe de Estado.

De acordo com a consultora política Beatriz Nóbrega, se houver ingerência de Trump no processo eleitoral, provavelmente será “por sinais políticos e retóricos”.

“Ainda assim, o efeito no Brasil tende a ser diferente do observado em países mais vulneráveis a condicionalidades externas: aqui, a capacidade de resposta institucional e a própria lógica de negociação bilateral reduzem a eficácia desse tipo de ação e tornam o resultado mais dependente da política interna do que de sinalizações externas”, afirmou ao Metrópoles.

Recuo estratégico

Para o Planalto, o recuo observado desde então — com a reversão do tarifaço e das sanções da Lei Magnitsky e a retomada dos laços diplomáticos com a aproximação de Lula e Trump — não deve ser interpretado como desistência, mas como uma pausa tática à espera de um novo nome viável no campo da extrema direita.

Nos bastidores, prevalece a avaliação de que forças políticas alinhadas a Trump compartilham uma visão estratégica segundo a qual os EUA precisam garantir aliados fiéis no ocidente. Nessa lógica, um governo brasileiro ideologicamente alinhado à ele é muito mais previsível e funcional para os interesses da Casa Branca.

Assim, integrantes da diplomacia avaliam que a boa interlocução entre Lula e autoridades americanas não é garantia de neutralidade quando a disputa eleitoral se intensificar, especialmente no segundo semestre de 2026. Com pesquisas indicando uma corrida potencialmente apertada, qualquer sinalização externa pode ter impacto relevante no debate interno.

A leitura no governo federal é de que o Brasil não pode subestimar o risco de ingerência, sobretudo em um contexto regional marcado por instabilidade e por uma atuação cada vez mais incisiva de Trump.

“Boa interlocução não elimina o risco estrutural em um cenário de política externa altamente transacional e sujeita a mudanças rápidas. Mesmo com canais abertos, instrumentos como tarifas e sanções podem ser mobilizados por razões domésticas nos EUA, por pressão de grupos internos, por cálculo estratégico e por mudanças de prioridade”, analisa Beatriz Nóbrega.